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Assassinato de diploma russo na Turquia: resposta à expansão geopolítica russa?

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      Tradução: Graça Salgueiro    
      Desde há vários meses vimos insistindo em que a pirotecnia global da guerra civil síria pode estourar na Turquia e, o audaz assassinato de Andrey Karlov, embaixador russo na Turquia, por parte de um jihadista pró-sírio em meio de uma exposição de arte em Ankara, poderia ser o letal início da decomposição e do desencadeamento final da violência nesta região, devido à obsessiva e agressiva expansão geopolítica e geoestratégica russa no Oriente Médio, Ásia Menor e no Cáucaso.
 
     A pontual reivindicação do atacante em nome de Deus e das vítimas de Alepo por conta dos desapiedados bombardeios russos e da carnificina desatada pelos shiitas iranianos, as sanguinárias forças de Al-Assad e as milícias do Hezbolah acompanhadas de outras milícias, todas contra a rebelde e valorosa população civil de Alepo, que durante mais de quatro anos tem resistido aos embates do regime de Assad, as agressões do ISIS e da Al-Qaeda, os ataques de milícias shiitas internacionais e a violência russa.
 
    Todo este cenário é produto da fria e desapiedada personalidade de Vladimir Putin, que intercedeu na guerra civil síria a favor de Bashar Al-Assad, em troca de sustentar a presença naval russa no Mar Mediterrâneo e com o inocultável desejo de reconquistar o Cáucaso e utilizar uma relação de dupla moral com a Turquia, para abrir e sustentar um extenso corredor estratégico que facilite o trânsito de suas tropas para o sul da Europa, o Norte da África e o Oriente Médio, com a finalidade de corrigir erros de cálculo cometidos pelo Kremlin durante a Guerra Fria.
 
     Em um submundo cambiante, ativo e diligente, salpicado de rebeldias religiosas e ambições geopolíticas regionais excludentes, mas com ambições desmedidas sobre o que reste da Síria depois da guerra civil, a Turquia é um epicentro-chave do devir imediato e a longo prazo desta região, portanto, as milícias suicidas de todas as vertentes ideológicas com assento na zona, encontram terreno fértil para se fazer sentir.
 
     Desta vez, a resposta foi o assassinato seletivo mediante um ataque terrorista perpetrado em um ato público, quando se sabia da sangrenta reprimenda russa que sobrevirá, porém, em contraste e conhecendo a mentalidade suicida dos muçulmanos que praticam a guerra santa desde o shiismo, esta ação é um convite claro e concreto para que novos mártires se imolem contra objetivos russos em qualquer lugar do mundo e, de passagem, mais um ingrediente para decompor ainda mais a complexa estabilidade política turca.
 
     A Turquia é um país multi-étnico, carregado de muita história e diversas culturas com ódios sem sanar, governado por um tirano ambicioso e egocêntrico, assediado pela corrupção, as violações aos direitos humanos, em permanente disputa política interna com os kurdos e suas guerrilhas peshmerga, com guerrilhas comunistas, com zonas de passagem para jihadistas do ISIS e Al-Qaeda, com redes de apoio aos milicianos sírios anti-Assad e com evidente interesse do governo de Erdogan de apoiar a eventual queda de Bashar Al-Assad para se apropriar do controle geopolítico da Síria.
 
     O primeiro obstáculo para esta ambição geopolítica da Turquia é que a Rússia quer o mesmo e do mesmo modo, sem compartilhá-lo com ninguém, com o ingrediente nocivo que historicamente as relações turco-russas foram tensas, com várias guerras incluídas, ódios insepultos e prevenções mútuas.
 
     Por razões óbvias Putin aproveitará esta conjuntura para convidar o nacionalismo e a unidade russa em defesa de seus interesses estratégicos mundiais, atacará com maior ferocidade os guerreiros libertários na Síria para sustentar o sanguinário regime de Al-Assad e, de passagem, contará com a atitude passiva de Obama que durante o último mês de seu mandato não fará esforço maior para evitar a carnificina vindoura, à espera de que Donald Trump receba essa batata quente.
 
     Entretanto, Erdogan, que já saiu adiante de um falido golpe militar, mas não consolidou sua questionada autoridade, terá a pressão interna de todos os setores turcos para que impeça as agressões russas que sobrevirão após estes fatos, a óbvia exploração dos eventos que os independentistas kurdos farão, o ressurgimento do latente reclamo armênio pelo massacre perpetrado pelos turcos no final da Primeira Guerra Mundial, os atentados terroristas de milícias sunitas que pescarão em rio revoltoso e a perigosa indiferença das Nações Unidas nesta nova crise.
 
     Como se pode ver e sem ser nem alarmistas, nem pessimistas, nem profetas do negativo, a realidade geopolítica e geoestratégica da guerra civil síria em território turco poderia desatar uma confrontação maior, pois em essência a guerra fria turco-russa com interesses sobre a Turquia somam-se com letal incidência a guerra fria Irã-Arábia Saudita, a guerra civil no Iraque, a instável lealdade do Egito com os Estados Unidos, a necessaríssima previsão defensiva de Israel, o alvoroço silencioso do Líbano, e sobretudo a linha de conduta que os Estados Unidos e a União Européia devem assumir, primeiro para evitar que o estardalhaço turco estoure, e segundo para parar em seco a desmedida ambição geopolítica de Putin.
 
    A Turquia está no centro da confusão e o assassinato do embaixador russo em Ankara poderia ser o detonante de um problema maior, como foi o do arquiduque Francisco Fernando em Saraievo, pois além disso os serviços de inteligência russo e o governo de Moscou poderiam recorrer ao velho estratagema de desfigurar a verdade e insinuar complôs internacionais do Mossad, da CIA, do MI5, etc., contra os interesses russos.
 
     Nunca antes, depois de terminada a guerra fria, o mundo tinha voltado a estar no umbral de um problema geo-estratégico de marca maior, como o atual cenário geo-estratégia da Turquia. As Nações Unidas irão requer de muita cortesia, muito tato diplomático e muita inteligência para evitar males piores, porém, claro, primeiro têm que assumir o problema como próprio e deixar de olhar para o outro lado, ou disfarçar sua verdadeira missão com atitudes que não lhe são próprias, por exemplo, fazendo o jogo do governo colombiano, com o pouco claro compromisso de paz das FARC, algo que não é a principal responsabilidade da ONU.
 
    * Coronel Luis Alberto Villamarín PulidoAnalista de assuntos estratégicos
- www.luisvillamarin.com