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Brasil, vítima dos clichês samba-coqueiros

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     * Driss Ghali,
      Tradução: Graça Salgueiro
 
      Os meios de comunicação franceses têm uma visão folclórica do país de Jair Bolsonaro. Esses meios não têm remédio: dizem que o país do carnaval, do samba, do rei Pelé, elegeu um mandatário “fascista”, “racista” e “homofóbico”: Jair Bolsonaro. O radicalismo de tal rechaço à eleição pelo povo brasileiro só é comparável à tenacidade dos clichês que fabricaram para esse personagem.
 
      O Brasil talvez seja o único país do mundo que é conhecido por clichês e nada mais do que isso. É a terra do samba, dos mulatos sempre sorridentes e dos coqueiros. Como marroquino, sei algo do que são os clichês pois meu próprio país é objeto de clichês, todos tão inexatos e enganosos como aquele: “Marrocos, país da intolerância” ou “Marrocos, um país dirigido com punho de ferro”. Marroquino e residente no Brasil há sete anos, me permitirei romper ou, ao menos, matizar algumas das análises lidas e aqui e lá sobre as eleições brasileiras.
 
     Você disse “fascista”?
 
    Dizem-nos que Bolsonaro é fascista. Inclusive no tom mais sério. Desmontar essa enormidade merece todo um artigo que, sem dúvida, não será lido pelos aprendizes de inquisidores que proliferam na França. O deles é pura crença religiosa e isso é inquestionável. Me limitarei a enfatizar que Bolsonaro é um evangélico, quer dizer, um homem religioso afiliado a uma das muitas igrejas protestantes do Brasil. Sua esposa também é. A maioria dos seus eleitores também são. É necessária uma boa dose de má-fé e de preguiça mental para confundir um evangélico com um fascista. Eu não conheço um fascista verdadeiro (dos da época de Mussolini, por exemplo) que tenha sido um cristão militante. Pelo contrário, o fascismo italiano desprezava o Vaticano e os valores da Igreja (viam-nos como demasiado brandos, demasiado humanistas, demasiado burgueses). Entre os nazistas alemães houve uma tendência “católica” (peço desculpa aos católicos pelo abuso da linguagem mas tenho que ser rápido), porém ela nunca pesou nada ante Hitler, um pagão radical.
 
     Entre os meus (não posso votar no Brasil porque sou estrangeiro), vejo minha empregada doméstica (uma mulata do nordeste) votar em Bolsonaro, meu zelador (um negro do nordeste) votar em Bolsonaro, minha esposa (brasileira de sangue judeu-austríaco) vota em Bolsonaro, um amigo gay vota em Bolsonaro. Em São Paulo, 68% dos votos válidos foram para Bolsonaro. No Rio de Janeiro, uma cidade 50% negra, 67% dos votos foram para Bolsonaro. Portanto, será necessário me explicar que vírus sado-masoquista empurrou as “minorias” a se jogar nos braços de um aprendiz de fascista! Também terão que explicar à minha esposa como o único candidato abertamente pró-Israel pode ser fascista.
 
     A esquerda, campeã da corrupção
 
     Se tomamos cinco minutos para ser sérios, podemos abrir os olhos e aceitar ver dois dos principais fatores que explicam a votação por Bolsonaro. Por uma lado, minha empregada doméstica e meu zelador são evangélicos como Bolsonaro. Seguiram as instruções de votação aprovadas pela igreja. Por outra parte, minha esposa e meu amigo homossexual estão fartos da esquerda brasileira, que levou o país à ruína, fazendo ambos perderem seus empregos. Não insistirei no tema, só lembrarei que a esquerda brasileira protagonizou o maior escândalo de corrupção da história do mundo: Petrobras! O saque do gigante brasileiro de hidrocarbonetos levou todos os tesoureiros do Partido dos Trabalhadores (PT) à prisão: são quatro os tesoureiros que estão atrás das grades.
 
     O rechaço à esquerda é muito mais que um fenômeno ideológico (minha esposa sempre votou no centro-esquerda e meu amigo homossexual é de esquerda). Porém, é preciso ver o tipo de campanha liderada pelos opositores de Bolsonaro. Seu lema era: “Lula é Haddad”. Em outras palavras, Haddad se apresentou como a encarnação de Lula. Este último era o verdadeiro candidato para as eleições presidenciais. Lula está na prisão condenado a doze anos (por corrupção). O objetivo declarado da esquerda brasileira era eleger Haddad e libertar Lula no ano seguinte, mediante um indulto presidencial. Então, Lula seria nomeado ministro para evitar qualquer investigação judicial futura (ganharia imunidade). Isso se chama obstrução à justiça. Pode-se reprovar muitas coisas de tipo moral no Brasil, mas ainda não é uma república bananeira. O Brasil nega-se a sê-la.
 
     O verdadeiro fascismo é o crime organizado
 
     Também li que “Bolsonaro será um presidente autoritário de direita”. Espero que isso seja só uma piada! Como estabelecer um regime autoritário com uma polícia que é incapaz de controlar áreas inteiras do território? A metade da população do Rio de Janeiro vive sob o jugo das quadrilhas. Em São Paulo, onde vivo, todos os subúrbios estão nas mãos do PCC (Primeiro Comando da Capital, a máfia do estado de São Paulo. São amigos das FARC que lhe vendem cocaína e armas), uma máfia que tem 10.000 combatentes. Todo o sistema penitenciário está controlado pelo crime organizado. Sob estas condições, Bolsonaro necessitará de muita motivação e esforços para estabelecer um regime autoritário no Brasil.
 
     No Brasil já vivemos sob uma ditadura: a do crime organizado. Eles são os fascistas. São os culpados pela morte violenta de mais de 62.000 brasileiros no ano passado. Eles cortam os cabelos e raspam a cabeça das mulheres que se atrevem a dizer não a seus “guerreiros”, eles queimam vivos os homossexuais e jornalistas que têm a desgraça de entrar em uma favela sem sua permissão. Eles cortam as cabeças de seus oponentes na prisão. São os narco-fascistas que estão convertendo o Brasil num inferno. Quantas mortes e massacres mais serão necessários para que os observadores estrangeiros entendam com que monstro o Brasil está lidando?
 
     O carnaval continuará
 
     Não se preocupe, com Bolsonaro ou sem ele, haverá carnaval em fevereiro próximo e os biquinis microscópicos continuarão florescendo em Ipanema. Os clichês serão salvos. Inclusive é muito provável que as quadrilhas retenham o controle das favelas sem se importar com o que Bolsonaro diga. Esse clichê também sobreviverá e sempre haverá “analistas” que falarão sobre o fracasso do Trump brasileiro. Qualquer que seja a votação, os clichês ganham sempre.
 
    * Revista Causeur, Paris - https://www.causeur.fr/bresil-cliches-bolsonaro-pt-medias-155891, publicado em 5 de novembro de 2018.
Traduzido do francês por Colombian News